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É fruto da maneira como vejo o mundo. Aceitam-se discordâncias e divergências, sempre dentro de uma lógica de boas maneiras, claro!

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Friday, February 12, 2010

Mais Que Música 2010! Muito boas notícias...

Monday, February 1, 2010

Os cristianizadores morais compulsivos

É bonito e quase comovente. Reproduzem-se como se não houvesse amanhã. São o contrário da gente relevante acerca da qual ainda ontem falou o meu ‘patrão’ e amigo Mário Rui Boto. Chamar-lhes cristãos é elogioso, atendendo à sua conduta de comportamento. Não, não estou a falar dos homicidas, nem dos homossexuais, nem dos ateus. Estou a falar de uma raça crescente e assustadora. Há quem lhes chame fariseus. Há quem lhes chame moralizadores. Há quem lhes chame falsos. Há quem diga que são necessários. Eu prefiro chamar-lhes os cristianizadores morais compulsivos da sociedade.

Especialistas na análise de tudo o que se passa à volta, sabem ler e compreender todas as atitudes dos outros, fazendo sempre a sua crítica ‘construtiva’, fruto de uma leitura cristã ‘séria e independente’. Vêem tudo e todos como ninguém, lendo todos os sinais de decadência moral em que este mundo está a entrar. São particularmente especialistas nas questões morais do indivíduo, comentando cada acção menos feliz com uma superiodade própria de alguém a quem a santidade assenta que nem uma luva. Tudo é vergonha. Tudo é desgraça. Tudo é decadência moral. Nada é óptimo. Caminhamos decisivamente para o maior dos males.

Estes moralizadores gostam especialmente de sangue. Tudo o que soe a queda, tudo o que soe a erro crasso de alguém, tudo o que soe a ‘derramamento de sangue’ (sempre ‘espiritualmente falando’) tem a sua atenção e a sua intervenção. Comparo-as àquela malta que aparece nos acidentes de viação, aqueles grandes. Há pessoas a morrer ali naquela altura, mas a sua preocupação está virada para quem teve a culpa, quem errou, quem falhou, como se os paramédicos tivessem isso em consideração aquando do tratamento dos feridos.

Estes moralizadores tendem a transformar a igreja em não, tendem a levar a igreja para um ponto de isolamento da sociedade, porque consideram a mesma demasiado impura para poder albergar a mesma. Estes moralizadores apenas se contentam quando a igreja se torna um clube de seres moralmente superiores, deslocados da sociedade por evidente capacidade superior. O seu sonho é quase o mesma da maçonaria: um circuito fechado e iluminado de gente acima de toda a suspeita. Uau!

É tempo de aqueles que são cristãos (seguidores de Cristo) se levantarem, não contra estes moralizadores, mas a favor de uma sociedade que precisa do Evangelho hoje mais do que ontem, e amanhã mais do que hoje. A última coisa de que precisamos é de quem aponta os problemas, as falhas, os erros. Precisamos de mãos que levantem a mulher adúltera, precisamos de palavra para falar com a mulher samaritana, precisamos de braços que abracem o filho pródigo, precisamos da atenção do bom samaritano para com o próximo. Não precisamos de quem diga que eles estão mal. Disso eles sabem. Todos sabem. Do que precisamos é de mais de Cristo e menos desta amálgama pseudo-moralizadora em que muito querem tornar a Igreja.

Monday, January 25, 2010

São três dias

‘São só três dias, senhor!’, exclamava aquele homem, num tom esbaforido e quase sem fôlego. Eu olhava para ele e pensava no quão irreal era aquela previsão. Afinal, quais seriam as hipóteses de, daqui a três dias, tal acontecimento de dimensão superior, acontecer? Poucas, pensava eu, mas o homem teimava, ‘três dias, senhor, três dias! Espere só mais três dias…’
Eu continuava a pensar que três dias era muito tempo. Tudo o que ultrapassa as três horas causa-me logo náuseas, quanto mais três dias. Raios! E logo agora que estava tudo tão bem encaminhado. Disse-lhe um ‘já volto’ frio e evasivo, na esperança de que ele próprio se deixasse daquela gritaria e daquela ideia. Tinha mais que fazer (frase que norteia toda a minha vida) e aquilo já se inseria no que eu habitualmente designaria de ‘palhaçada’.
Esperar três dias por uma coisa que nem sei se viria a acontecer, nem que hipotéticos resultados teria? ‘Não, nem pensar’, era o que me passava pela cabeça. Afinal, 'tenho dinheiro, estou bem na vida, gosto de tudo JÁ, e esperar nunca foi o meu forte. A minha assitente já sabe como é. É tudo hoje, agora, e às vezes, ontem! Não tenho tempo, nem paciência, nem quero esperar nem um, nem dois, quanto mais três dias! Isto comigo é tudo a andar e sem paragens, é a aviar cartucho’ pensava eu, como que a relembrar-me a mim mesmo como funciono.
Estava eu no meio do meu brainstorming de auto-elevação, quando um pequeno calafrio, pequeno mesmo, me passou pela área a que carinhosamente chamamos ‘espinha’. Corrente de ar? Ar condicionado? Olhei à volta e nada disso. Já sabia o que era. E quase que me chateei com isso. Era ‘aquela’ sensação que me ia obrigar a ir contra o que tinha acabado de pensar, a seguir o chamado ‘feeling’. ‘Raios!’ exclamei, como se estivesse destinado e automaticamente obrigado a ler e a cumprir aquilo que o tal de ‘feeling’ me tinha designado.
Virei a esquina e lá estava o tal homem. Antes que aquela cantilena começasse outra vez (o facto de eu lhe dar os três dias não significava que eu o quisesse ouvir de novo…) levantei o braço direito no ar, num sinal de ‘pare’, e avancei para ele, decidido e seguro. ‘Três dias, nem mais um’, disse-lhe eu com aquela voz de mau que tão bem sei fazer, ‘nem mais um’. O homem disse-me, então, um feliz mas tímido ‘não se vai arrepender, senhor’ que eu só dias depois compreenderia.
Mal sabia eu que, aos três dias, a minha vida iria mudar. Para sempre…

Thursday, January 21, 2010

Reescrevendo 'Os que da lei da morte se libertam'

Reescrevo porque repensei e reflecti.

O post 'Os que da lei da morte se libertam' foi escrito tendo como ponto de partida o falecimento da minha avô Luísa. Alguns saberão que ela passou os últimos 28 anos num estado provocado por acidente grave de viação, que a atirou para uma cadeira de rodas, ao mesmo tempo que toldou boa parte das suas capacidade mentais. Com base nisso escrevi (e pensei!) que a grande mágoa que teria era de não a poder ter conhecido verdadeiramente, antes desse acidente. Mas hoje escrevo diferente, e passo a explicar porquê.

Desde miúdo que me habituei a ouvir relatos da vida da minha avóantes do acidente, contados por gente que ela conhecia, amava ou, de alguma outra forma, influenciou. Ouvi n relatos diferentes, de gente diferente, que conviveu com ela em momentos diferentes. Todos esses relatos convergem num ponto-chave comum. A minha avó amava as pessoas, amava estar com elas, preocupava-se com elas e queria estar no meio delas. Ajudava, acompanhava, aconselhava, dava a mão, levantava, mobilizava. Tinha tempo para a Igreja, para a família, e para as pessoas, nunca descurando nenhuma destas áreas.

É por isso que eu reescrevo. Guardei da minha avó uma coisa simples, mas de importância incalculável. O amor pelas pessoas. O interesse pelas pessoas. O foco nas pessoas. As pessoas é o que de mais importante há neste mundo. Cristo veio pelas pessoas. E eu gostaria de também ser reconhecido por essa característica. E é por isso que reescrevo. Porque, sem que provavelmente ela tenha tido consciência disto, a minha avó ensinou-me o quão importantes são as pessoas. Sem elas, nem correrias, nem edifícios, nem projectos, nem reuniões importam. Importam, isso sim, as pessoas. E é por elas que sigo o exemplo da avó que eu não conheci, mas da qual ouvi falar. Porque as tuas obras continuaram e continuarão a falar mesmo depois da tua morte...

Tuesday, January 19, 2010

Os que da lei da morte se libertam

Sobre aqueles que 'se vão da lei da morte libertando’, escreveu Camões, até talvez pouco confiante na grandiosa verdade que acabara de escrever. Olhar para a morte como o derradeiro lugar de oportunidade, pode ser estranho, mas talvez não seja assim tão incorrecto. Mas não é uma dissertação sobre a morte que me traz aqui. É uma dissertação sobre a vida…

Quando perdemos alguém, por muito difícil que nos seja encarar tal facto, guardamos as recordações e os momentos que nos marcaram de alguma forma. Podemos dizer que a força da recordação é a força que mantém determinadas pessoas ‘vivas’ em cada um de nós. Eu próprio já o escrevi. São essas pequenas lembranças que nos engancham à memória deste ou daquele momento, desta ou daquela pessoa, deste ou daquele dia. É tal como acontece com o povo. Se estudarmos Relações Internacionais (e todas as suas ‘afiliadas’) aprendemos que só há povo quando há memória colectiva. Histórias, dias, sucesso, vitórias, derrotas e fracassos comuns, celebrados e chorados em conjunto. Aplicando isto ao indivíduo, diria que uma das piores tragédias do ser humano seria a de perder a capacidade de guardar as suas memórias, quer as boas (por razões óbvias), quer as más (porque nos ajudam a lembrar o quão boas são as boas).

A modernidade tem-se esforçado por deixar de viver amarrada ao passado. E tem-no feito bem. Mas não pode cair no erro de esquecer a sua memória. Nem revivalistas, nem desconhecedores do passado. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Sejamos equilibrados, porque sem este equilíbrio, perderemos grande parte daquilo que somos. Há que estabelecer a diferença entre revivalismo fundamentalista, que deifica tudo o que é passado, e o apagar da memória colectiva, que nos trouxe até aqui, que fez de nós aquilo que somos, com todos os defeitos e virtudes que isso acarreta.

Talvez me perguntem porque escrevo sobre memória sendo tão novo. Eu explico. 25 anos é a minha idade. Hoje, vi falecer a minha avó Maria Luísa, a quem um acidente grave de viação retirou grande parte das faculdades físicas e mentais que tinha. Esse acidente ocorreu em Outubro de 82. Isto significa que vi partir alguém que, na realidade, nunca conheci. O único gancho que me segura à sua história são as histórias e as narrativas de quem conviveu com ela antes daquele dia. E se perder alguém cuja história nos marca directamente é doloroso, não pensei que lembrar-me que nunca conheci a minha avó, aquela avó dinâmica e cuidadosa, decidida e meiga, pastora e amiga, fosse tão difícil. Faltam-me palavras para expressar o vazio. A pena de não ter como recordar aquilo que a Maria Luísa Barradas foi verdadeiramente. Apenas ouvi falar dela…e isso não me chega…

Não é tarde para ganhar a memória. Vou agarrar no meu avô João (o único vivo agora) e vou escrever um livro com ele. Não é um livro de memórias, mas um livro de sabedoria, da sabedoria que emana de cada vez que ele fala. Quero que todos conheçam o homem que, de cada vez que abre a boca, me ‘mostra’ qualquer coisa nova sobre a Bíblia. E quero ter essa memória…