Este Blog...

É fruto da maneira como vejo o mundo. Aceitam-se discordâncias e divergências, sempre dentro de uma lógica de boas maneiras, claro!

Sejam bem-vindos!

Friday, September 4, 2009

Uma Cruz

Só há uma cruz. Aquela que O levou até ao topo do monte, onde veio a morrer só porque eu quis. Aquela que foi carregada sem ajuda, sem brilho, sem glamour. Aquela que viu sangue, água, vinagre, injúrias, dor, morte. Aquela que se tornou o símbolo de uns tantos para a perdição de muitos.

Só há uma cruz. A que ainda não foi, nem é, nem será totalmente compreendida por nós. A que nós ainda não vimos, a que nós ainda não alcançámos na totalidade. A que pensamos ser o pior momento, a que pensamos ser a vergonha das vergonhas.

Só há uma cruz. Uma que não significa pregos e madeira. Uma onde não se ouve o barulho dos martelos a baterem no madeiro. Uma de onde não jorra morte, ou ódio, ou infâmia, ou culpa, ou maldição. Uma onde tudo o que fazia sentido deixou de fazer. Uma que usou as coisas estranhas para enganar as óbvias. Uma que veio baralhar as contas do senhores que ‘tudo’ sabiam.

Só há uma cruz. Não, não é a das mãos e pés pregados. Não, não é a da carinha infeliz e mísera de um corpo frágil e sem cor. Não, não é a do sofrimento, dor e súplica. Não, não é a do desafio do ‘salva-te a ti mesmo’. Não, não é da repetição exaustiva disto ou daquilo. Não, não é, definitivamente, a cruz da morte.

Só há uma cruz. A do sangue que escorre vitoriosamente. A da dor redentora, do amor encarnado e vivido. A da pedra removida, do lugar vazio, da surpresa, do impensável. A da misericórdia de um ser que, sendo forte, poderoso, se fez fraco, se tornou como um dos tais que o desprezaram, e por eles mesmo decidiu carregar peso e mais peso.

Só há uma cruz. Aquela de onde vejo todo o mundo. Aquela de onde se vê o lado direito do Grande. Aquela onde a Humanidade decidiu firmar estacas. Aquela que não mostra um ser morto, mas alguém vivo. Aquela onde quem quiser pode beber, e fazê-lo de graça.

É essa a cruz que eu conheço. Conheces outra?

Wednesday, September 2, 2009

A desgraça alhei(r)a

Interessante este desporto nacional que faz da desgraça alheia o toque de inspiração para o dia. Confesso se ainda não percebi se é apenas uma característica tuga ou se é mesmo o ser humano que é assim. Tenho a sorte de todos os meus amigos estrangeiros (e tantos que elas são...upa, upa!) serem uns porreiraços, o que não dá para fazer uma avaliação global e planetária da coisa.

Duas situações diferentes, duas marcas profundas da cultura portuguesa. Um acidente na estrada. Dois ou três carros completamente destruídos. A polícia a mandar avançar e nós a tentar ver o que nraio se passa ali. Curiosidade? Não. Gosto por perceber que tipo de desgraça alheia ali aconteceu. Por isso é que preferimos passar lá enquanto a polícia não chega, mesmo que nunca na vida paremos para chamar socorro numa situação dessas! Outra. O nosso vizinho, homem que até é simpático, passa pouco tempo em casa, porque se farta de trabalhar. Abre uma empresa, enriquece, embora continue simpático, sempre limitado pelo pouco tempo que passa em casa. Enriqueceu, ouvimos nós? Deve ter sido jogada, negócio escuro, droga, qualquer coisa. Porque enriquecer legitimamente é que nunca. Estranho que depois este mesmo povo vote em Isaltinos, Fátimas Felgueiras e Valentins Loureiros...

Eu confesso que de vez em quando sou acometido por este pensamento. Mas logo que me apercebo de tal facto, esbofeteio-me violentamente a ponto de nunca mais pensar na desgraça alheia como a minha alegria. Foi esta mentalidadezinha que nos tirou do topo do mundo e nos empurrou para o fundo da Europa. Foi esta maneira mesquinha e invejosa de ver as coisas que fez de nós os pequenotes que hoje somos. É por isso que eu prefiro a desgraça alheira. Aquela desgraça que vem em forma de colesterol quando me acometo a um prato da dita cuja como se não houvesse amanhã. É que a desgraça alheira não faz mal a ninguém a não ser a mim mesmo...e ainda me dá o belíssimo prazer de a poder saborear...

Monday, August 31, 2009

Momentos de Decisão

Existem momentos na nossa vida em que a pressão aumenta, o coração bate mais depressa, em que a adrenalina sobe até quase fazer disparar o coração. São normalmente momentos em que percebemos que algo está em jogo, momentos que percebemos que podem ser decisivos e que podem influenciar o nosso rumo daí por diante. É interessante ver como mudamos perante a possibilidade iminente de momentos de decisão, como a nossa atenção se redobra, como, de repente, nos tornamos atentos a todos os pormenores, todas as possibilidades, todas as potenciais movimentações.

Mas o que é feito dos outros momentos? O que é feito da esmagadora maioria dos momentos em que, à partida, não somos obrigados a atenção redobrada ou a um cérebro em permanente estado de alerta. São aquilo a que chamamos os ‘dias normais’, aqueles em que não temos nenhuma apresentação no trabalho ou na faculdade, aqueles em que não temos nenhum exame ou avaliação. Reparemos no exemplo dos atletas de alta competição. Eles não aparecem apenas nos dias dos Olímpicos ou dos Mundiais. Antes disso há toda uma preparação que lhes permite chegar aos momentos decisivos com todas as suas capacidades no topo, capazes de dar o melhor de si. De uma maneira simples, podemos dizer que a preparação de um atleta de alta competição tem dois momentos dstintos. Um primeiro momento, anterior ao sucesso, em que o atleta é preparado para melhorar os seus índices físicos gerais. Ao mesmo tempo, a sua exposição a um trabalho intenso e difícil de suportar molda a sua personalidade e capacidade de sofrimento. Num segundo momento, o atleta prepara-se especificamente para a sua disciplina, especialmente se falarmos de uma disciplina técnica. Ou seja, um saltador não treina apenas o salto em si, treina todos os aspectos relacionados com cada momento do salto, desde a velocidade, passando pelo acto da chamada, e terminando na maneira como ‘aterra’ na caixa de areia. Mas o verdadeiro momento decisivo não é quando se apresenta num Campeonato do Mundo ou nuns Jogos Olímpicos. O momento decisivo deu-se no primeiro dia de treino, quando decidiu que se iria esforçar e trabalhar para chegar a um determinado nível. Mais, os momentos decisivos foram todos aqueles em que decidiu ir correr em vez de ir beber uns copos com uns amigos (bem mais apelativo, não é?), ou todos aqueles em que decidiu ir saltar para a caixa de areia, em vez de ir ver o jogo de futebol, ou até todos aqueles momentos em que ficou horas a fio a melhorar a sua técnica de salto, em vez de ficar em casa, deitado a ver televisão.

Todos nós temos dons, e isso é um facto. Mas ainda não conheci nenhum dom que se desenvolvesse enquanto estamos sentados no sofá a beber cerveja, a comer tremoços e a ver televisão. O momento em que decidirmos deixar de viver por essa bitola, saindo da nossa zona de conforto, esse será o momento de decisão da nossa vida.

Wednesday, August 26, 2009

Esta coisa chamada Portugal

'Ora pois que aqui andamos.' Podia ser esta a frase que melhor definiria o actual momento do nosso país. Mas não. Com eleições à porta, a Silly Season a rebentar, parece que anda tudo esquizofrénico. Daí que a frase deveria ser algo como 'ora pois que aqui sobrevivemos, sabe Deus como.'

Escutas na Casa da Presidência, recusas de debates, barulheira infernal a ocupar os telejornais das 20h às 21h, ininterruptamente. É esta a agenda política do país. E ainda nos vamos espantando com as incongruências deste pedaço de terra. Isto tudo porque amanhã vai faltar um mês para eleições legislativas. Portanto, se isto foi até aqui, imaginem como serão os próximos 30 dias. Alguém me traga um copinho de água com açucar, estou a desmaiar...

'Ora pois que aqui andamos', contentes e felizes, felizes com a relativamente aceitável mediocridade em que nos temos transformado. Apre (bela expressão)! Já fomos grandes e capazes, porque não o podemos ser agora? Porque temos de nos contentar com esta madronha, com esta lenga-lenga que é a tentativa de sacudir a água do capote. O povo diz que é o governo, o governo diz que é o povo. Ficamos onde?

Tudo isto porque vêm aí eleições, e ou muito me engano, ou ficamos todos na mesma. Mas não porque vai ganhar x ou y. Apenas porque o povo é o mesmo, e os políticos também. Logo...

Monday, August 24, 2009

Num dia assim...

Num dia assim, em que a moleza decide aparecer sem pedir licença e instalar-se em todos os músculos do corpo, tornando o nosso próprio peso quase insustentável e insuportável, como se tivéssemos engordado 20 ou 30 quilos numa só noite. Num dia assim, em que o tempo se revelou híbrido, desgraçadamente virado do avesso e esquizofrénico, fazendo o que bem lhe apetece, sem tomar consciência dos prejuízos que causa em milhares de pessoas que precisam de e querem trabalhar. Num dia assim, em que ninguém sabe dizer com certeza o que vai na alma, porque, afinal, não são só os músculos que estão pesados, a cabeça também e as emoções ainda mais. Ninguém sabe porquê, até porque nada de especial se passou naquilo que, em teoria, seria apenas 'mais um dia'. Num dia assim, em que a palavra criatividade se tornou uma miragem distante e longíqua, em que a palavra produtividade é tabu e vergonha pessoal e nacional, em que a infame palavra preguiça reina sem dó nem piedade, num regime absoluto e tirano. Num dia assim em que escrevo o que me apetece, mas onde tenho de conviver com as cãibras das pontas dos dedos, porque a preguiça enviou emissários a esta zona do corpo também, para se certificarem diligentemente de que nada é feito. Será que há alguma coisa a fazer num dia assim?

Num dia assim talvez não dê para muito. Dá para usar os sentimentos em que a preguiça não interfere. Assim, as mãos, os pés e cabeça não vão longe, mas o meu amor por aqueles que me rodeiam pode perfeitamente rebentar com a escala. Porque a produtivdade não está apenas nas mãos e no cérebro. Afinal, também podemos ser produtivos com o coração. E hoje decidi fazer do meu um lugar produtivo.

Tenham uma grande semana.